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Fonte: Correio Braziliense
Autor: Bruna Sensêve

Na puberdade, as glândulas mamárias de uma menina começam a se desenvolver devido à liberação dos hormônios sexuais femininos na circulação sanguínea. As mamas são extremamente sensíveis à ação da progesterona e do estrógeno, que se ligam ao tecido dos seios por meio de moléculas conhecidas como receptores. É essa associação que vai controlar a multiplicação celular, atendendo às exigências da vida sexual e reprodutiva do organismo. Quando as células cancerígenas passam a promover alterações nessa região, uma de suas estratégias é manter esses receptores, pois será a partir deles que elas conseguirão se “alimentar” e, assim, crescer e se desenvolver. Essa explicação corresponde a 70% dos casos de câncer de mama, tendo a droga tamoxifeno como principal terapia contra eles.

A substância não é um quimioterápico, age interrompendo essas ligações entre o receptor e o hormônio para que o tumor não possa mais evoluir (veja infografia). Atualmente, a medicação é ministrada oralmente, afetando o corpo de maneira sistêmica, ou seja, por inteiro. Uma nova proposta de entrega dessa substância pode mudar completamente a forma como são desenvolvidos os tratamentos anticancerígenos. De acordo com uma pesquisa publicada hoje na Clinical Cancer Research, uma revista especializada da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, o mesmo medicamento em forma de gel poupou as pacientes de uma série de efeitos colaterais normalmente percebidos na versão oral. Além disso, ele também se mostrou mais eficaz devido à aplicação local — mais restrita e intensa.

A variação do tamoxifeno em gel criada por uma equipe que reuniu diversos departamentos da Escola de Medicina da Universidade Northwestern Feinberg recebeu o nome de 4-OHT. O estudo comparativo com a terapia oral foi feito com 27 mulheres com carcinoma mamário in situ, idade entre 45 e 86 anos e no período pré ou pós-menopausa. Metade delas tomou o medicamento oralmente e a outra aplicou o produto nos seios de seis a 10 semanas antes de uma cirurgia de mastectomia. No processo, a concentração de tamoxifeno no tecido adiposo mamário e em seus principais metabólitos foi determinada por espectrometria de massa de cromatografia.

“Neste estudo, demonstramos que a aplicação do gel 4-OHT na pele resultou em níveis elevados de droga no seio e em níveis baixos na circulação. Isso manteria a eficácia da droga, mas minimizaria os efeitos colaterais”, concluiu a principal autora do trabalho, Seema Khan. O nível baixo da droga no sangue reduziu efeitos colaterais hormonais e de coagulação que são comumente vistos em pacientes tratadas com tamoxifeno orais. Após as semanas de aplicação do gel, um marcador de proliferação celular (Ki-67) também foi reduzido no tecido da mama a níveis comparáveis ao do tratamento por comprimidos.

Fígado protegido

Para o chefe do Departamento de Oncologia Clínica do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), Auro del Giglio, o estudo é preliminar e com um número ainda reduzido de pacientes, mas é capaz de mostrar uma certa superioridade do gel devido à diminuição de efeitos colaterais importantes. “Ele influi menos nos parâmetros de coagulação e isso pode se traduzir numa menor taxa de tromboembólicos. É um estudo de viabilidade para mostrar que o tamoxifeno por via transcutânea reserva as mesma características anticancerígenas da versão oral, sem o prejuízo de coagulação que ele produz.”
Del Giglio explica que uma possível vantagem é que a absorção transcutânea faz com que a substância não passe pelo fígado, como acontece na administração oral, levando a uma alteração nos efeitos sistêmicos. Uma vez que a via é diferente, não atinge todo o corpo. “Existem outros medicamentos que interferem no metabolismo do tamoxifeno por meio fígado, como os antidepressivos. Pode ser que essa interação deixe de acontecer com o gel”, cogita.

A opinião é similar à da pesquisadora Seema Khan. Ela explica que o tamoxifeno precisa ser ‘processado’ pelo fígado para ativar seus componentes. Nesse processo, os efeitos secundários prejudiciais também podem surgir, como a ativação de proteínas que provocam a formação de coágulos sanguíneos. Uma vez que a metabolização pelo fígado é eliminada quando o gel 4-OHT é aplicado diretamente sobre a pele do peito, o efeito prejudicial de aumentar o risco de coágulos de sangue também deve sumir. Com base nos resultados, no entanto, os pacientes que usaram o gel não tiveram melhora significativa dos sintomas vaginais, gastrointestinais ou ondas de calor e suores em comparação às usuárias orais — o que eram considerados efeitos colaterais benéficos.

Primeiro estágio

É uma forma muito inicial da doença. Nessa etapa, as células com características malignas não atingem veias e linfáticos, não dão metástases e podem ser consideradas como um pré-carcinoma. Com o emprego mais difundido do rastreamento mamográfico, corresponde atualmente de 10% a 30% dos casos de câncer de mama tratados. As formas de terapia empregadas são a mastectomia total, a mastectomia preservadora de pele, a adenectomia, a ressecção segmentar e a radioterapia complementar.

Palavra de especialista
Análise com mais pacientes

“No estudo, durante o período entre a biópsia e a cirurgia, foi reavaliada a atividade proliferativa celular, além da concentração do derivado de tamoxifeno. A pesquisa mostrou que as participantes que usaram o gel tiveram uma redução de proliferação em torno de 4%, semelhante ao resultado por via oral. Essa pode ser uma alternativa com menor risco de efeitos colaterais pela menor concentração da substância na corrente sanguínea. Pode servir como um estímulo para fazer um estudo com populações maiores para ver se realmente isso se repetirá.”
Antonio Luiz Frasson, diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia.

Fonte: Portal G1

Projeto utiliza engenharia genética para produção de insulina.
Células pancreáticas ficarão em ‘bolso’ do lado de fora do abdômen.

Um disco ultrafino de polímero, pouco maior do que um CD, implantado no abdômen poderia mudar a vida de milhões de diabéticos que dependem de insulina. O pâncreas bioartificial, desenvolvido por pesquisadores franceses, será testado pela primeira vez em humanos em 2016.

Com o dispositivo, os pacientes não terão mais de receber injeções diárias de insulina: o hormônio será fabricado naturalmente pelas células do pâncreas (obtidas por engenharia genética a partir de células-tronco), dispostas dentro do bolso artificial.

Este projeto, cuja aplicação em grande escala não deve ocorrer antes de 2020, “levanta muitas esperanças e expectativas” para 25 milhões de pessoas com diabetes do tipo 1 em todo o mundo, diz Séverine Sigrist, pesquisadora da start-up francesa Defymed, responsável pelo protótipo.

A ideia de um pâncreas bioartificial foi inspirada na técnica de transplante de células pancreáticas, destinadas a suprir a deficiência do pâncreas e fazer com que o organismo passe a fabricar a insulina por conta própria, regulando assim a quantidade de açúcar no sangue. O problema dessa técnica é que, com a escassez de células para transplante, ela só pode beneficiar uma pequena minoria de doentes. Ela também exige o tratamento com medicamentos imunossupressores, que trazem vários efeitos colaterais.

“Daí a ideia de projetar um tipo de uma pequena caixa dentro da qual seriam colocadas as células pancreáticas, para que elas fiquem abrigadas contra o ataque do sistema imunológico”, diz Séverine.

O desafio foi projetar uma membrana semipermeável, que garanta tal proteção ao mesmo tempo em que permita a passagem da insulina e também dos açúcares, para que as células pancreáticas “saibam” o quanto de insulina devem produzir.

O disco de polímero será implantado no abdômen durante uma pequena cirurgia, e deve ser substituído a cada 4 ou 6 anos. No interior, as células pancreáticas serão renovadas, por meio de uma injeção subcutânea, a cada 6 ou 12 meses. Os pesquisadores observam que essa quantidade de injeções não tem nem comparação com o tanto de picadas que um paciente que depende de insulina tem que levar ao longo da vida.

20 anos de pesquisa
O desenvolvimento dessa membrana levou mais de 20 anos de pesquisa e 6 milhões de euros. O valor corresponde ao imenso potencial econômico da inovação, estimado em 4 bilhões de dólares.

Depois de testes em animais, um estudo com 16 voluntários deverá começar no fim de 2015 ou início de 2016, em Montpellier, no sul da França e em Oxford, no Reino Unido. Os primeiros resultados devem estar disponíveis no final de 2017.

Se for bem-sucedido, o tratamento poderá libertar os diabéticos do “fardo” que representa o tratamento diário com insulina, diz o médico Michel Pinget, diretor do Centro Europeu para o Estudos da Diabetes (CEED), que lidera o projeto em Estrasburgo.

“Quando você é diabético, gosta de toda novidade que possa melhorar o cotidiano”, diz Éric Dehling, presidente da associação Insulib, que reúne mais de uma centenda de pacientes do leste da França. Para ele, as novas tecnologias, como as canetas e as bombas de insulina, já melhoraram a vida dos diabéticos. Mas o pâncreas bioartificial permite que eles sonhem com uma “qualidade de vida ainda melhor”.

Fonte: Correio Braziliense
Autor: Bruna Sensêve

O objetivo final do Projeto Genoma não é só decifrar o código humano, mas recolher recursos biológicos suficientes para renovar a medicina e ampliar ainda mais a gama de estratégias contra doenças enigmáticas, como o câncer, e as mais cotidianas, incluindo as que acometem o coração. A enorme coleção de informação genética colhida por cientistas de diferentes partes do mundo desde 1990 passa dos laboratórios para os consultórios, tornando possível e real a proposta de translação da medicina, termo relativamente novo que trata da aplicação clínica de conhecimentos e avanços originados na pesquisa básica. Nesse sentido, a ideia de usar conhecimentos moleculares em prol do sistema cardiovascular começa a chegar aos pacientes, conforme detalha a edição desta semana da revista Science Translational Medicine.

Minúsculas proteínas, células desconhecidas e tecnologia de ponta forçaram as portas dos consultórios e começam a ter resultados animadores em pacientes. O avanço mais significativo de todos talvez esteja na genética cardiovascular, que abre a possibilidade de um tratamento personalizado e mais efetivo em complicações que lideram a mortalidade no planeta. A doença cerebrovascular, por exemplo, atinge 16 milhões de pessoas ao redor do globo a cada ano, sendo que, dessas, 6 milhões morrem. De acordo com o Ministério da Saúde, o acidente vascular cerebral (AVC) é a principal causa de incapacidade e morte no país, somando cerca de 68 mil óbitos anualmente.

Diretora da Clínica da Genética Cardiovascular, pertencente à Universidade de Chicago (EUA), Elizabeth McNally acredita que, no centro da atual união entre genética e cardiologia, estão as variações de DNA raras e privadas. “Normalmente encontradas em menos de 1% da população, as variantes raras são evolutivamente mais jovens e, por esse motivo, sofreram menos seleção que as comuns, que já atingiram o equilíbrio populacional. São também mais potentes, com efeitos mais profundos na expressão no indivíduo.” No entanto, McNally explica que a natureza dessa informação genética individualizada desafia as práticas convencionais de pesquisa genética com base populacional —que normalmente enfatiza as variantes genéticas comuns e o papel delas no desenvolvimento de doenças.

O ser humano médio tem aproximadamente 4 milhões de nucleotídeos do DNA que são diferentes da sequência do genoma humano de referência. Em cada um único genoma, pelo menos 100 mil dessas variantes de DNA são raras, variantes genéticas incomuns que podem determinar suscetibilidade a doenças, proteger contra males ou se comportar de forma relativamente neutra. “Estudar as variações genéticas raras requer novos métodos porque, pela natureza delas, essas variantes ou combinações de variantes podem ocorrer apenas uma vez na população.”

Ação pontual

Mas qual a utilidade de saber algo tão raro na população? Luis Henrique Gowdak, cardiologista do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, explica que o objetivo final é ter uma espécie de planta, como a de um edifício, para saber perfeitamente onde cada fármaco genético deve agir. Porém, antes disso, precisa-se conhecer essas raras modificações. “Sabemos que o colesterol LDL, conhecido como o ruim, muito elevado é um risco para a doença cardiovascular e que existem remédios que diminuem esse volume. Essas drogas podem funcionar em algumas pessoas e em outras, não”, exemplifica.
Cientistas descobriram que algumas populações têm alterações no funcionamento de genes responsáveis pelo metabolismo ligado ao aumento e à queda do colesterol. Trata-se de uma mutação rara que faz a substância gordurosa funcionar de forma diferente. “Quando os pesquisadores da área básica viram isso, perceberam o problema dos clínicos com pacientes que continuam com colesterol muito alto apesar do tratamento e se perguntaram se conseguiriam inativar esse gene nessa população.”

Segundo Gowdak, moléculas foram criadas para inibir os genes em questão, e os níveis do colesterol despencaram em pacientes. “Hoje, tenho uma ferramenta cardiovascular desenvolvida com a genética. Um clínico isolado ou um pesquisador sozinho em um laboratório nunca teria essa informação. Podemos caminhar para um cenário de farmacogenômica. É o sonho que poderemos chamar de medicina individualizada”, aposta o cardiologista.

Revitalizações

Na mesma edição da Science Translational Medicine, o presidente do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Perelman, nos Estados Unidos, Daniel Rader, é positivo ao concluir que avanços na compreensão da genética da doença arterial coronariana vão revitalizar o campo e levar a mais intervenções terapêuticas. O grande problema a ser enfrentado, porém, é o desenvolvimento de drogas de uma forma geral, incluindo as baseadas em abordagens genéticas, a partir de testes com animais, que têm o corpo diferente dos humanos. Os modelos animais para a aterosclerose, por exemplo, não provaram ser eficientes em prever tratamentos eficazes em pessoas.

Diante do complicador, a abordagem genética é que tem mais chance de vencer esse obstáculo, acredita Rader. “Baseando alvos de drogas em genética humana, podemos proporcionar uma maior confiança de que uma terapêutica direcionada para um caminho especial vai mostrar benefício clínico na redução de grandes eventos cardiovasculares em pessoas.” Ele usa como exemplo os bons resultados encontrados recentemente na imunoterapia contra o câncer, que também é uma abordagem direcionada para o desenvolvimento de novos tratamentos e que começa a ser desenhada por grandes laboratórios farmacêuticos.